Mas apesar da minha corujísse típica, a Luiza é uma criança normal e faz todo tipo de coisa que as crianças da idade dela costumam fazer, como inventar histórias, por exemplo.
Ela tem um apreço imenso por essa atividade, e à noite, na cama, enquanto meu cunhado implora pra irem dormir ela diz: peraí papai, deixa eu contar mais uma história pra você. E fica lá por horas, envolta em princesas, castelos, crianças, Duda, tia Lu, menino-que-mordeu-o-coleguinha-e-foi-pro-castigo...
Da última vez que ela veio aqui em casa, contou várias histórias pra mim e enquanto fazia isso eu tive uma ideia! Se liga...
Ela tem leves desavenças com o irmão de 10 meses, Gustavo, mais conhecido como "o gostoso". Vira e mexe ela aperta o bracinho curto dele, dá cascudos naquela cabecinha tão bonitinha e uma vez chegou a morder a pobre criança. Os pais desesperados, já tentaram tudo: conversa, cantinho da disciplina, psicólogo, falar sério e alto e em casos extremos uma leve sacudidela na danada. Mas nada...
Aí a tia espertona aqui resolveu usar de uma estratégia pedagógica e exemplar: fazer a Luiza provar do próprio veneno, usando as histórias dela como lição pra deixar em paz o Gustavo gostoso.
Na noite aqui em casa, quando ela terminou de me contar as histórias, eu pedi pra contar uma e fui inventando uma trama em que a personagem principal: princesa Luiza, tinha problemas familiares com seu irmão, príncipe Gustavo e no final de tudo eles só foram felizes para sempre quando ela deixou de perturbar o pobre príncipe.

A criatura ficou me olhando com os olhos culpados desde a primeira fala, mas não pronunciou palavra que comprovasse semelhança com a vida real [que não era mera coincidência].
Passadas duas semanas, minha irmã ligou pra mim informando as novidades no front.
A Luíza chegou pra minha mãe com seu jeito safadíssimo de ser e falou: vovó vou contar uma história.
-É filha? Conta.
-Era uma vez a cinderela que foi no shopping.
-Lá no shopping ela começou a fazer pirraça e gritou muito: eu quero chocolate, eu quero brinquedo.
Aí o pai dela, o rei, falou: Cêga de vergonha, vamos embora!
E levou a cinderela embora.
Era a história do sábado à noite.
Minha pedagogia não deu certo. Ou não tão certo quanto eu gostaria.
A Luiza continua acabando com a carreira do irmão menor.
Mas pelo menos agora tem uma nova técnica de invenção de histórias.
E agora uma notícia me conforta: O Gustavo mais maduro, com quase um ano, já está reagindo aos abusos fraternos e aprendeu que aqueles cachos de cabelo presos na cabeça da irmã doem a beça se forem puxados com força.
1 meteram o bedelho:
Ela não é sua sobrinha! Mto sagaz! haha
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